A guerrilha de republicanos que luta contra a reeleição de Trump

A guerrilha de republicanos que luta contra a reeleição de Trump
O presidente Donald Trump, em 15 de julho, nos jardins da Casa Branca. Foto: Patrick Semansky

 

Uma constelação de estrategistas e analistas conservadores realiza campanhas milionárias que repudiam o presidente e pedem voto para Biden

 

 

“Me chamo Monica Bailey, sou uma cristã evangélica proveniente [do Texas]. Nunca votei num democrata. Votei em Trump porque não podia acreditar que alguém que se comportava de uma forma tão boba como ele na televisão seria assim na vida real”.

“Olá, sou Jay e sou da Pensilvânia. Sou um sargento aposentado das Força Aérea e sempre fui republicano. Votei em Donald Trump em 2016 e não votarei de novo agora. Leio minha declaração porque há muitos motivos e quero contá-los...”

Dezenas de testemunhos desse tipo, gravados em vídeos caseiros e com esse ar de grupo de apoio emocional, estão num site batizado de Eleitores Republicanos contra Trump. É o projeto lançado por um grupo de analistas e estrategistas conservadores, detratores acérrimos do presidente, que estão investindo milhões de dólares contra sua reeleição. Uma iniciativa similar, The Lincoln Project, criada em dezembro passado por conhecidas figuras republicanas, colocou em marcha sua própria maquinaria de propaganda por terra, mar e ar com um objetivo para 3 de dezembro: que seja eleito o democrata Joe Biden.

Donald Trump ganhou as eleições de 2016 de forma solitária. Terminou a campanha repudiado pelas estrelas do partido. Aquele magnata imobiliário e showman, afeito ao estilo grotesco, havia desferido o golpe de sua vida nas primárias republicanas, mas as grandes figuras o abandonaram nos comícios. Fora do Capitólio e do partido, também alguns ideólogos e intelectuais conservadores abraçaram a ideia do “nunca Trump” e chegaram a pedir voto para Hillary Clinton. O candidato impossível, no entanto, chegou à Casa Branca. E, pouco a pouco, praticamente todas as camadas do Grand Old Party aderiram ao novo líder.

Outros, como a consultora Sarah Longwell, continuaram na ala contrária. Ela encontrou o aliado perfeito, o comentarista e editor Bill Kristol, um dos intelectuais mais importantes do neoconservadorismo dos Estados Unidos, fundador e diretor durante 24 anos da revista política The Weekly Standard (fechada em 2018) e que havia trabalhado para os Governos de Reagan e dos dois Bush. Filho de Irving Kristol ―considerado o pai do movimento neoconservador―, ele foi um dos primeiros a atacar Trump. Com Longwell, criou em 2018 a organização Defender Juntos a Democracia. Outros veteranos republicanos, como o assessor Mike Murphy e Tim Miller, que trabalhou para Jeb Bush em 2016, também se juntaram a eles.

Em quatro anos, tornaram-se um grupo organizado e com um notável orçamento: arrecadaram 13 milhões de dólares (70,2 milhões de reais), comprometeram um gasto de 10 e esperam alcançar os 15.

“Algumas coisas mudaram desde 2016”, explica Sarah Longwell. “Primeiro, agora questionamos Trump por suas ações fora da lei durante sua presidência. Segundo, e mais importante, nos últimos cinco meses muitos de seus eleitores estão sofrendo as consequências pessoais de sua gestão [da pandemia]. Isso não envolve apenas assuntos que lhes pareciam abstratos e aos quais não prestavam muita atenção, como a trama russa e o escândalo da Ucrânia. Isso está tendo um impacto direto em sua vida, e Trump não oferece o tipo de liderança necessário.”

O fenômeno faz lembrar a campanha “democratas por Nixon” de 1972, quando o candidato George McGovern sofreu uma derrota sideral para o republicano.

Para derrotar Trump, o grupo de Longwell veiculou anúncios na Fox News, o grande braço midiático conservador nos EUA, mas se concentra sobretudo na estratégia digital. Esta é, segundo Longwell, a que melhor lhes permite identificar e se dirigir “ao estreito nicho suave de eleitores de Trump”. Estes, os eleitores não aderidos ao culto trumpista, são os que colocam o mandatário em risco em Estados que podem mudar o resultado das eleições, como Michigan, Pensilvânia e Wisconsin. Não são necessariamente moderados, explica a assessora. Alguns são centristas e outros muito conservadores em matéria econômica ―rejeitam a guinada protecionista de Trump, por exemplo.

“Há anos estudamos como convencer os eleitores republicanos a não votar nele. Fizemos muitos focus groups e vimos que escutar relatos reais de gente como eles funciona muito bem”, diz Longwell.

Não há fogo tão letal quanto o fogo amigo. O The Lincoln Project nasceu em dezembro de 2018 também com essa ideia vinda dos estrategistas republicanos Rick Wilson e John Weaver, da ex-presidenta do Partido em New Hampshire, Nejjifer Horn, e do advogado George T. Conway, que é marido de Kellyanne Conway ―uma das assessoras do presidente (sim, esse é um dos fenômenos mais estranhos deste estranho tempo em Washington).

“Trump ainda conserva a maioria do eleitorado republicano, reconhecemos isso, mas perdeu apoio. E, com nosso sistema eleitoral, só precisamos ganhar alguns votos em lugares como Wisconsin, Pensilvânia e Carolina do Norte para virar o resultado a favor de Biden”, explica Rick Wilson. Para isso, o grupo inunda redes sociais com vídeos que disparam contra Trump.

Teriam lançado a mesma campanha se o esquerdista Bernie Sanders fosse o candidato democrata? Negativo, dizem tanto Longwell como Wilson. “Não teria sido um candidato viável”, afirma o segundo.

Biden tem uma vantagem de quase nove pontos contra o republicano (48,7% contra 40,1%), segundo a média das pesquisas do Real Clear Politics. O The Lincoln Project opera como Super-PACs, grupos de apoio político que podem arrecadar dinheiro de forma ilimitada sem revelar a identidade dos doadores. Somente entre abril e junho, eles captaram 16,8 milhões de dólares (90,7 milhões de reais), segundo dados do Center for Responsive Politics, embora Wilson diga que no total tenham alcançado 19 milhões (102,6 milhões de reais) e ainda disponham de 14 milhões (75,6 milhões de reais) no banco para lançar a munição pesada no outono. Cerca de 45% dos recursos captados procedem de pequenos doadores (menos de 200 dólares), mas grandes contribuintes democratas também injetaram fundos.

Até o momento, alguns vídeos já irritaram Trump, que qualificou o grupo de “perdedores”. O foco de um dos vídeos era Brad Parscale, chefe de campanha de Trump até a noite da última quarta-feira. O The Wall Street Journal informou que aquelas imagens, que acusavam Parscale de ter se enriquecido à custa de Trump, foram a gota d'água para que o presidente o relegasse a segundo plano. O financista Anthony Scaramucci, ex-diretor de Comunicação da Casa Branca, também lançou um grupo anti-Trump, o Right Side PAC.

Algumas campanhas também são dirigidas contra senadores e deputados republicanos que têm sido especialmente significativos em seu apoio ao presidente [como Martha McSally, do Arizona, e Cory Gardner, do Colorado], já que “o objetivo não é só se livrar de Trump, mas do trumpismo do partido”, afirma Wilson.

Este é o dilema sobre o futuro do partido de Abraham Lincoln. Quem o representa melhor na atualidade: Donald Trump ou esses republicanos? “O nacionalismo e o populismo são incompatíveis com o conservadorismo”, diz Wilson. Sarah Longwell admite que os republicanos já haviam tomado uma direção mais populista antes de 2016, mas lembra que Trump venceu as primárias por causa da atomização de seus opositores e acentuou essa guinada. O futuro será decidido, como sempre, nas urnas. Se Trump perder, diz Rick Wilson, “haverá um colapso dentro do partido, haverá ajustes de contas e escândalos.” Fonte: El País